Negras relatam motivações e desafios para empreender

Tratamento discriminatório no mercado formal estaria entre as razões para lançar o próprio negócio

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Angèle Murad

Detalhes de mãos de mulher negra digitando em teclado de computador
Acesso a crédito e capacitação estão entre os desafios enfrentados por empreendedoras negras / Foto: Arquivo pessoal (capa)/ Freepik (interna)

Mais da metade dos negócios brasileiros são dirigidos por pessoas negras. Dados do estudo Empreendedorismo Negro no Brasil, realizado pela Preta Hub, em 2019, dão conta de que 51% dos empreendedores brasileiros são negros, ou seja, pretos ou pardos segundo a definição do IBGE. O cenário pode parecer promissor. Entretanto, é preciso destacar que nem sempre as pessoas negras abrem um negócio por opção.


Segundo Priscila Gama, empreendedora e fundadora do Instituto Das Pretas, muitas vezes o negro empreende com uma maneira de driblar o preconceito no mercado de trabalho:

“A gente precisa entender que as pessoas precisam empreender nas periferias porque elas não são absorvidas no mercado de trabalho de uma forma igualitária, né? Pessoas negras, especialmente mulheres negras, não são absorvidas no mercado de trabalho nos locais e nas vagas para as quais elas se prepararam a vida toda e, quando elas ocupam essas vagas, elas não entram em linha sucessória e muito menos ganham a mesma coisa que outras pessoas, inclusive mulheres não negras”, pontua Priscila. 


A análise de Priscila procede. Pesquisa de 2021 do Dieese apontou que 46% das negras e 48% dos negros são trabalhadores desprotegidos - categoria que abriga empregados sem carteira assinada, autônomos que não contribuem com a Previdência Social e trabalhadores familiares auxiliares. O percentual de trabalhadores brancos nessa situação é menor: 34% das mulheres e 35% dos homens.

A taxa de subutilização da força de trabalho (que mede o percentual de pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e a força de trabalho potencial) também mostra grande disparidade racial: 40,9% das mulheres negras contra 27,5% das não negras. No caso dos homens, a taxa é de 26,9% para negros e 18,5% para não negros.



As desigualdades não param na contratação. O salário recebido pelos negros também é, em média, inferior ao recebido pelos brancos. Mulheres negras recebem R$ 1.617 enquanto as brancas ganham R$ 2.674. Já os homens negros têm renda média de R$ 1.968 e os brancos, R$ 3.471, segundo o Dieese.

Diante desse cenário, empreender se torna uma saída. A solução não é nova, destaca Priscila: “Isso para a gente é muito tradicional e ancestral. Começa lá com as quituteiras, com a vendedora de acarajé, com a vendedora de cocada”, exemplifica. 


Motivações

Larissa Azevedo Silva, de 29 anos, é tatuadora e começou a empreender em 2016 por necessidade. “Eu estava na Bahia fazendo faculdade e vivendo apenas com auxílio dado pela universidade, que não era suficiente. Como sempre desenhei, ganhei de presente da minha amiga minha primeira máquina de tatuagem. Daí em diante, eu quis fazer da tattoo minha profissão. Eu realmente me apaixonei por gravar sonhos na pele”, diz.  

Ela conta que, na época, havia pouquíssimos tatuadores negros e que realmente sabiam aplicar cor e contraste em peles negras. “Por isso eu quis me dedicar a estudar principalmente peles negras”, explica.  

Para Andréia Quitéria Santana Santos, de 25 anos, o nascimento da filha foi o impulso de que precisava para criar a Crespura, empresa que promove e comercializa arte, cultura e educação, principalmente na prática do ofício de trancista.

“Em 2018 me senti inspirada a começar um negócio que me permitisse autonomia e liberdade para organizar minha rotina de forma conveniente. Almejei uma profissão em que eu pudesse conciliar maternidade e geração de renda”, afirma. 

Já Iaiá Rocha, de 26 anos, conta que seu objetivo ao empreender foi a busca pela representatividade. A fotógrafa e artesã é dona de duas empresas, a Foto Melanina, criada em 2017, e a Arame sem Farpa, marca de acessórios criada em 2020. Ela descreve seu trabalho como “resgate de memória para construção de afrofuturos.”

Jaqueline Serafim, de 36 anos, é proprietária do Black Girls Ateliê, salão de beleza especializado em cabelos afro, e sente na pele as dificuldades de empreender sem suporte governamental. “Comecei com o objetivo de oferecer uma vida melhor para minha família. Hoje tenho três funcionárias fixas e uma freelancer no final de semana. Minha maior dificuldade é falta de capital de giro e falta de apoio do governo. Nós que somos pequenos precisamos de um apoio maior e melhor. E o contrário acontece. Quanto menor somos, mais o governo quer nos afundar. Para ficarmos certinhos, é imposto em cima de imposto. Sinto muita dificuldade.”


Dificuldades

Larissa revela que conseguiu se especializar no empreendedorismo graças a um evento nacional: “Tive a sorte de ser selecionada para a Expo Favela, onde tivemos, além de uma mentoria coletiva de empreendedorismo, um mentor individual. Porém, essas oportunidades são raras. Nesse evento nacional, além de ser a única do ramo da tatuagem presente, eu também fui a única representante do Espírito Santo.” 

A tatuadora também teve suporte do Sebrae. “Tive oportunidade de participar da formação “Das Pretas” com o Sebrae. Mas, ainda assim, faltam muitas iniciativas desse tipo no mercado”, lamenta. 

Andréia também realizou minicursos voltados para aceleração e desenvolvimento do seu negócio. No momento, está cursando uma aceleração para negócios de impactos socioambientais, promovida pelo Instituto Das Pretas em parceria com a Nívea Brasil. “Passamos por um processo seletivo que reuniu lideranças de negócios incríveis de outros estados como Rio de Janeiro e Bahia. Estamos muito felizes”, ressalta.

Mas, na opinião da dona da Crespura, seu caso não é a regra. “Infelizmente o conhecimento ainda é monopolizado, principalmente na área empresarial. Por entender essa necessidade, a Crespura oferece o curso de trancista para quem deseja sair da CLT (legislação que rege as regras do mercado formal no país) ou gerar uma renda extra para sua família”, informa.


Frente à dificuldade de acesso à formação, Andréia se esforça para que sua empresa, que hoje já conta com cinco colaboradores remunerados, ofereça mais do que cursos na parte prática do ofício:  

“É necessário fornecer outras ferramentas, como um minicurso de gestão financeira, estratégias de precificação, mídias sociais e até mesmo sobre o contexto cultural e histórico das tranças. Esse tipo de formação traz valor para o profissional. E é por isso que nos reunimos toda segunda para estudar em coletivo”. 

Iaiá aponta que, no começo, a falta de educação sobre empreendedorismo foi uma grande dificuldade, mas que suas empresas começaram a decolar quando a oportunidade de estudar surgiu. 

“Hoje eu sou uma das 50 aceleradas do Instituto Feira Preta. Trabalho também de forma fixa. Por enquanto, não só empreendo. Trabalho na Shell Iniciativa Jovem, que é um dos maiores programas de empreendedorismo no Brasil. Eu sei o quanto é importante a educação empreendedora”, reconhece. A meta de Iaiá para 2023-2024 é conseguir se sustentar apenas com suas marcas.


A fotógrafa também chama a atenção para a romantização do empreendedorismo. “Vemos muito gente romantizando empreender. Na verdade, empreender é muito difícil, principalmente quando a gente vem de uma realidade de periferia, quando a gente é negro”, reflete.  

Também Iaiá aponta a educação como solução: “É muito urgente termos educação empreendedora para as pessoas terem autonomia para se entender empreendedor de fato ou pelo menos ter a lucidez de entender que aquilo que ela tá vivendo não é empreender, é simplesmente fazer uns bicos para conseguir pagar as contas. Temos romantizado muito a precariedade mascarada de empreendedorismo”, lamenta.

Além da educação, empreendedores negros enfrentam outros obstáculos. Larissa, que é microeempreendora individual, relata que sua principal dificuldade é a burocracia. “Principalmente quando tentei aumentar meu negócio, conseguir crédito é um empecilho muito grande e desanimador”, relata. 


Perfil

O estudo realizado pela Preta Hub traz mais dados sobre o perfil do empreendedor negro no Brasil: 59,3% têm até o ensino médio completo e 60% têm renda familiar até R$ 5.000 mensais. Além disso, em 88% dos negócios, o negro é único responsável pela gestão financeira da empresa e 54% dos empreendedores são formalizados.

Black money

Os negros são responsáveis por 40% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Os dados são do estudo Faces do Racismo, realizado em 2022 pelo Instituto Locomotiva.

O dinheiro preto, conhecido como Black Money, é o que circula entre pessoas negras no mercado. O estudo também aponta que mulheres, negros e classes C, D e E concentram mais de 80% da intenção de compra do país.

Apesar do peso das pessoas negras na economia, o racismo persiste no trabalho e até nas relações de consumo. Dois terços dos brasileiros conhecem alguém que já sofreu situação de humilhação no trabalho e 69% desses casos ocorreram em razão de raça ou cor.

Além disso, três entre quatro integrantes desse segmento dizem ter sofrido constrangimento em estabelecimentos comerciais, como ser seguido por seguranças e ser acusado de roubo.

Empreendedorismo na Ales

Tramitam na Assembleia Legislativa dois projetos de lei que tratam da Política Estadual de Fomento ao Empreendedorismo Negro. O PL 970/2019, de Pr. Marcos Mansur (PSDB), foi apensado ao PL 765/2019, de Luciano Machado (PSB).

Alguns dos objetivos listados na proposta são fomentar e apoiar os projetos de pequeno, médio e grande porte de negros empreendedores no Espírito Santo, bem como ampliar as ações de formação e qualificação empresarial. 

Além disso, a iniciativa facilitar as condições de acesso ao crédito para negros empreendedores bem como a bens de produção, equipamentos, mobiliário e outros meios necessários à operacionalização dos empreendimentos. 

Com a instituição da política pública, busca-se também potencializar o aumento da remuneração média dos negros e das mulheres empreendedoras e incrementar o combate o racismo institucional.

O Espírito Santo também conta com a Semana da Consciência Negra, celebrada na semana do dia 20 do mês de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. O objetivo é estabelecer estratégias e ações para enfrentar a discriminação em suas diversas formas.