Cultivo da palmeira juçara gera renda e protege espécie ameaçada

Exploração sustentável da palmeira nativa da Mata Atlântica para comercialização do fruto, semelhante ao açaí, tem ajudado a preservar espécie em risco de extinção

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Nicolle Expósito

Copa da palmeira juçara com cachos de frutos ainda verdes
Quilo do fruto da palmeira juçara pode valer até quatro vezes mais que o do palmito / Foto: João Marcos/Nitro Imagens

Quando a família de Emerson Miranda adquiriu uma propriedade de 15 hectares em Santa Teresa, município distante cerca de 70 quilômetros da capital, Vitória, o cenário era muito diferente do que é hoje. O local era repleto de bananeiras, laranjeiras e 13 mil pés de café. A mata nativa se resumia a apenas um hectare.

Em 1990, Emerson e a esposa, Viviane Lopes, iniciaram o processo de recuperação da mata nativa. “A gente queria devolver a floresta para a natureza”, conta.

Hoje o sítio Rancho Fundo conta com mais de 10 hectares - o equivalente a 10 campos de futebol - de vegetação nativa. O caminho para o reflorestamento foi o plantio da palmeira juçara, espécie nativa da Mata Atlântica, similar ao açaizeiro, natural da Amazônia. Atualmente, a propriedade possui mais de 400 pés da juçara registrados no Programa Estadual de Ampliação da Cobertura Vegetal, o Reflorestar, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama). Além disso, ostenta mais de 20 mil pés fora do programa.
 
FOTO SÍTIO RANCHO FUNDO
Ameaça de extinção

A palmeira juçara é uma espécie ameaçada de extinção por causa da extração do seu palmito. Como a planta é monocaule, a retirada do palmito causa a morte da árvore. Por isso, desde 2008 sua exploração é proibida. Entretanto, o palmito continua a ser extraído ilegalmente e é vendido no mercado disfarçado de pupunha e açaí.

Processo

Emerson conta que o reflorestamento foi feito por etapas. “Primeiro, criamos uma área de abandono (local onde a vegetação pode crescer livremente por tempo determinado sem nenhum plantio prévio). Isso dá a chance de as sementes que chegam no bico dos pássaros vingarem e nascerem. Depois, roçamos a capoeira (vegetação secundária composta por gramíneas e arbustos esparsos, que cresce após a derrubada da vegetação original). Deixamos apenas as mudas de até um dedo de espessura. Essas medidas enriquecem o solo naturalmente com a decomposição das folhas e frutos que caem, por exemplo.”

Em seguida, Emerson faz o manejo das árvores que surgiram naturalmente, sem a necessidade de plantio. O manejo consiste em limpar a área, afastando mudas muito próximas, para que seja possível a introdução de outras culturas como a juçara.

A palmeira promove uma restauração natural muito diversificada. É o que explica o agricultor: “As aves chegam para comer o fruto da juçara e trazem sementes, que caem no solo e germinam. Assim, em torno da juçara, cresce um ecossistema bem variado”, pontua.

FOTO JUÇARA
Além do surgimento natural de algumas espécies e do cultivo da juçara, Emerson também plantou na propriedade cacau, pupunha, cítricos, açafrão e café, por exemplo. Tudo no meio da floresta. Essas outras culturas são mantidas apenas para a subsistência, diferente do fruto da juçara, que é comercializado. “O extrativismo faz a floresta trabalhar para você”, comemora.

Recuperação do ecossistema

Dividido entre área de floresta densa e sub-bosque, o sítio Rancho Fundo hoje esbanja vida. Espécies em extinção voltaram a aparecer, como a samambaiaçu (espécie de samambaia com porte de árvore). É que o processo de reflorestamento trouxe de volta não só as árvores, mas também muitos animais. É o que observa Emerson:

“Cinco jacus moram lá. Com a florada da juçara, chegam a aparecer 30, bem como muitos tucanos, arapongas, sabiás-preto e várias outras espécies de aves. Também tem muitos macacos-prego, insetos, anfíbios e pequenos répteis. Fora do período de florada, há menos animais, mas bichos maiores aparecem por terem mais local de passagem. Tem muitos gatos-do-mato, caticocos (roedor também chamado de caxinguelê), iraras (semelhante aos furões), lontras e até onças”, conta. 

Outra vantagem do reflorestamento foi a mudança observada no microclima. “No sítio vizinho, você não aguenta de calor. No nosso, a temperatura é amena, já que há sempre orvalho nas folhas e o solo está sempre úmido. A juçara depende desse clima para se disseminar. Por isso que ela não vai para o sítio vizinho, mesmo que os pássaros levem as sementes. Aqui foi criado um microclima”, relata.

FOTO EMERSON MIRANDA
Água é um recurso que não falta na propriedade, já que a juçara é protetora natural das nascentes. “Depois que reflorestamos, brota água onde não brotava. Brota água sem parar, mesmo sem chuvas. E a floresta segura muito a água. Mesmo na crise hídrica de 2013, ficamos protegidos. Sítios vizinhos precisaram ser abastecidos por caminhão pipa. Para nós, nem parecia que tinha crise hídrica”, lembra o proprietário do sítio Rancho Fundo.

Reflorestar

O trabalho desenvolvido na propriedade de Emerson só foi possível porque houve apoio do governo, em especial por meio do programa Reflorestar. “Ele foi vital para nós, bem como a parceria com o Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural) de Santa Teresa e o Iema (Instituto Estadual de Meio Ambiente)”, declara.

De acordo com a Seama, o Reflorestar é uma iniciativa do Estado que tem como objetivo promover a restauração do ciclo hidrológico por meio da conservação e recuperação da cobertura florestal. Além disso, o programa está focado na geração de oportunidades e renda para o produtor rural via fomento do manejo sustentável dos solos.

Marcos Sossai, coordenador da iniciativa criada em 2011, afirma que o Reflorestar já apoiou a restauração de aproximadamente 10 mil hectares no Espírito Santo. Além disso, o projeto faz Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no estado, remunerando o produtor que preserva e recupera recursos naturais. “Reconhecemos, por meio do Pagamento por Serviços Ambientais, outros 10 mil hectares de florestas já existentes”, pontua Sossai.