Quase metade dos acidentes com vítimas envolve motos e bikes

Dados deste ano foram fornecidos pelo Detran-ES, para quem índices devem ser maiores por causa da subnotificação

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Angèle Murad | Atualizado há 4 meses

Motociclista em via asfaltada e sem foco pedestre em pé e do outro lado da pista, carros e pedestres
Para o Detran-ES, a imprudência ainda é a principal causa de acidentes / Foto: Lucas S. Costa

Com uma frota ativa de quase 2,2 milhões de veículos, sendo 574.534 de motos (não há contabilização do número de bicicletas), o Espírito Santo já registrou 4.099 acidentes com vítimas este ano. Desses, 1.772 envolveram motociclistas e 167 bicicletas. Representando um pouco mais de um quarto da frota de veículos, as motocicletas respondem por 43% dos acidentes. Os números não refletem com precisão a realidade. E o motivo é a subnotificação. 

A diretora técnica do Detran-ES, Édina de Almeida Poleto, destaca que acidentes de menor proporção costumam não ser registrados. “A gente tem, de fato, a falta de registros em muitos casos, em especial relativos aos mais vulneráveis: os pedestres, os ciclistas e os motociclistas”, aponta. 

Gráfico em formato de pizza sobre acidentes com vítimas no ES: 43,7% motos; 52,7% carros; e 4,10% bicicletasi
O cicloativista Fernando Braga, que é funcionário do Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo (Crefes), relata a dificuldade de obtenção de dados precisos. Lotado na unidade de trauma neurológico adulto e infantil do Crefes, o professor de educação física integra equipe interdisciplinar que atua na reabilitação: “Nem lá eu tenho o número de quantos pacientes de UTI são vítimas do trânsito e por qual modal. Até 2018 eu fiz parte da Subcomissão de Análise de Óbitos de Trânsito, que era um programa do Ministério da Saúde. Paramos de fazer análise das mortes porque não tínhamos um boletim preciso”, lamenta.

Para Fernando, a municipalização do trânsito prejudicou a compilação dos números. “O Estado é carente do cruzamento desses dados, por incompetência, por negligência, por omissão. Desde que houve a municipalização do trânsito, ficou um jogo de empurra. Hoje não é mais competência do estado e sim das prefeituras.” A municipalização do trânsito tem previsão no Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Jânio Ribeiro, motociclista e membro do Movimento Capixaba para Salvar Vidas no Trânsito (Movitran), concorda que o número de ocorrências é muito maior do que as estatísticas indicam. “Muitos acidentes não são registrados, seja porque são de menor proporção, seja porque há muita gente conduzindo sem documento do veículo e até mesmo sem habilitação. Essas pessoas evitam registrar o acidente”, afirma. 

MONTAGEM EDINA
Para tentar reduzir a violência no trânsito, acontece durante o mês de maio a Campanha Maio Amarelo. Este ano, o lema da campanha é “Juntos Salvamos Vidas”. A ideia é conscientizar a população de que um trânsito seguro depende da atuação consciente de todos.

Imprudência

De acordo com Édina Poleto, a principal causa de acidentes ainda é a imprudência. “O motociclista, por exemplo, muitas vezes coloca a vida dele em risco. Anda acima da velocidade, passa correndo no sinal amarelo quando deveria ter atenção, coloca o celular no capacete. Ele tem que se preocupar com capacete com viseira abaixada, não usar chinelo  - eles acabam tendo muitas lesões graves no pé - e andar na velocidade da via”, orienta. 

Jânio concorda com Édina. “O principal erro é o excesso de confiança. “Eles acreditam muito que o acidente só acontece com o outro. Fazem manobras arriscadas, entram no corredor de qualquer maneira e correm muito. Isso os coloca em perigo”, destaca.

Foto e aspas de Jânio Ribeiro: "Tem muito motociclista que sobe na moto e esquece que tem uma vida em cima dela"
Para o motociclista, há muito a se fazer para evitar acidentes com motos. “A primeira coisa é tirar uma habilitação e tirar de forma consciente sobre como pilotar uma moto. Apesar de os órgãos serem rigorosos para a emissão de carteira, falta mexer com o emocional da pessoa. Tem muito motociclista que sobe na moto e esquece que tem uma vida em cima dela, que tem uma família em casa”, afirma Jânio.

Segundo ele, é ainda comum ver desrespeito às normas quanto aos equipamentos de proteção. “O motociclista precisa estar equipado com luvas, jaqueta e calçado adequado. Vemos muita gente pilotando de camisa e chinelo.” 

Jânio observa que a pandemia agravou o problema da existência de motociclistas sem carteira ou habilidade no trânsito. “Com a pandemia e o desemprego, muitas pessoas passaram a trabalhar como motoboy, mesmo sem habilitação ou sem muita habilidade para a profissão”, afirma. Segundo o secretário-geral do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Espírito Santo (Sindimotos), Luciano Santana, cerca de 5 mil motoboys têm carteira de trabalho no Espírito Santo.