Faltam dados sobre águas subterrâneas no ES

Invisíveis aos olhos, bolsões sob superfície terrestre são fontes para abastecer cidades e campo; Estado carece de dados sobre qualidade e quantidade de aquíferos

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Nicolle Expósito | Atualizado há 6 meses

Água saindo de cano, ao fundo aparece lagoa cercada por grama
No Brasil, extração de água subterrânea é feita especialmente por meio de poços / Foto: Canva

O tema do Dia Mundial da Água 2022, celebrado neste 22 de março, é “Águas subterrâneas: tornando o invisível visível”. O assunto ressoa especialmente no Espírito Santo, onde há muito a se conhecer e regulamentar sobre as tais “águas invisíveis”.

As águas que penetram o solo, preenchendo completamente os poros das rochas e dos sedimentos, formam os chamados aquíferos. Esses bolsões desempenham diversas funções ecológicas como a proteção da água doce, ao minimizar a sua evaporação, e manutenção da umidade do solo, colaborando para a preservação da flora.

Doutora em Geologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Luiza Bricalli destaca que “o principal impacto das águas subterrâneas no ecossistema ocorre na dinâmica do ciclo hidrológico, que é o movimento da água na superfície terrestre e abaixo dela, que circula entre os diversos reservatórios: oceanos, atmosfera e continentes”.

“O movimento cíclico da água – do oceano para a atmosfera pela evaporação - volta para a superfície por meio da chuva e, então, retorna aos oceanos. Parte da água que se precipita nos continentes encharca o subsolo pela infiltração, onde a água penetra nas rochas ou nos solos”, explica a geóloga.

Vale ainda destacar que o caminho da água entre as rochas gera um processo natural de filtragem e purificação. Naturalmente limpo, esse recurso abastece tanto o campo quanto as cidades, além de alimentar sistemas aquáticos como rios, lagos, mangues e pântanos, tornando-se, assim, fundamental à segurança hídrica. Dados do livro As águas subterrâneas e sua importância ambiental e socioeconomica para o Brasil apontam que, em 2019, mais de 30 milhões de brasileiros (17,7%) faziam uso das águas subterrâneas.
 
Conforme o Estudo de Águas Subterrâneas, realizado pelo Instituto Trata Brasil, inúmeras atividades econômicas utilizam as águas subterrâneas para suprir suas necessidades pelo país, sendo o seu uso distribuído entre atendimento doméstico (30%), agropecuário (24%), abastecimento público urbano (18%) e abastecimento múltiplo (14%), cujo destino é em grande parte diversificado para a prestação de serviços urbanos. Os dados são de 2018.

MONTAGEM USO DA ÁGUA
Falta de informações

Mesmo diante da inegável relevância do recurso, a Agência Estadual de Recursos Hídricos do Espírito Santo (Agerh) afirma que o Espírito Santo sofre com a deficiência de informações sobre disponibilidade hídrica dos aquíferos.

Quando um poço é perfurado e regularizado perante a agência, informações valiosas são obtidas por meio das amostras e dos testes de bombeamento realizados. A Agerh explica que, como os aquíferos estão “escondidos”, essa é a análise mais complexa no processo de gestão de recursos hídricos, sendo necessário um robusto estudo para quantificar a água disponível no subsolo.

Além disso, não existe hoje no estado uma rede de monitoramento da qualidade da água subterrânea. No processo de requerimento de outorga de direito de uso de recursos hídricos subterrâneos, é exigido o estudo hidrogeológico do poço - que avalia o potencial para ocorrência e captação de água - acompanhado, para efeito de cadastro, de um laudo laboratorial contemplando os principais parâmetros associados à poluição das águas.

Potencial para ocorrência e captação de água subterrânea

Segundo Luiza Bricalli, o Espírito Santo possui grande potencialidade de extração de água subterrânea, mas o estado ainda tem pouco conhecimento sobre o tema. “São necessários estudos detalhados de reconhecimento dos aquíferos e sua potencialidade”, aponta.

ARTE TIPOS DE AQUÍFEROS
Segundo a Agerh, o estado conta com dois tipos de aquíferos: fissural, reconhecidamente de baixo potencial; e poroso, no qual geralmente se observam vazões mais altas.

Bricalli pontua que, na porção leste/nordeste do Espírito Santo, ocorrem os aquíferos porosos de elevada potencialidade. “A sua projeção em superfície representa 3.922,32 km² (8,56%) da área total do estado e 27,34% são de aquíferos porosos”, detalha a geóloga.

O aquífero Barreiras, presente em toda porção do leste e nordeste do estado, é a formação na qual se observa maior disponibilidade de água subterrânea no território capixaba. Com largura aproximada de 30 quilômetros, suas águas têm importante papel no abastecimento público e na irrigação no norte do Espírito Santo, principalmente entre as cidades de Linhares, São Mateus, Jaguaré e Nova Venécia.

MONTAGEM AQUÍFERRO BARREIRAS
Extração da água subterrânea

A água subterrânea é explorada por meio de poços instalados em aquíferos. Esses poços podem ser dos tipos freático (ou cacimba), semi-artesianos (ou ponteira) e artesiano.

Segundo Luiza, no Brasil, cerca de 50% da população é abastecida por águas subterrâneas por meio de companhias de água. No estado, entretanto, a realidade é outra. “No Espírito Santo, pouquíssimas cidades são abastecidas com águas subterrâneas”, lamenta.

De acordo com a geóloga, essas águas podem ser extraídas por poços ou pelo aproveitamento das nascentes, ponto em que os aquíferos interceptam a superfície. “No Brasil, grande parte das águas subterrâneas são extraídas por poços tubulares (mais conhecidos como artesianos)”, explica.