Março Lilás mobiliza contra o câncer do colo do útero

Assintomática em fase inicial, doença tem 100% de chances de cura se detectada precocemente 

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Angèle Murad

Médica sentada em cadeira e pernas abertas de mulher durante exame preventivo
Foto: iStock

Um corrimento persistente e sangramentos inesperados. Foi assim, por causa desses sintomas, que a professora Flávia Monteiro, 44 anos, desconfiou de um problema e recorreu ao médico. “Por alguns meses, parecia que eu tinha um corrimento excessivo. Como também tive alguns sangramentos fora do período menstrual, fiquei preocupada. Marquei uma consulta de emergência com minha ginecologista e tive o diagnóstico: câncer do colo do útero”, conta. 

A doença foi um susto, já que apenas quatro anos antes Flávia tinha tido uma gestação saudável. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa), estima-se o registro de 240 novos casos da doença este ano entre as capixabas. A faixa etária mais afetada é de 40 a 44 anos. Em 2021, segundo a Sesa, 103 capixabas morreram em razão da doença no Espírito Santo.

Arte sob fundo lilás sobre os tumores mais frequentes em mulheres: mama, colorretal e colo do útero

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de cervical, como também é chamado o câncer do colo do útero, é o terceiro tumor maligno mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama e colorretal, e a quarta causa de morte de mulheres por tumor maligno no Brasil.

Doença silenciosa

Em sua fase inicial, o câncer do colo do útero não costuma apresentar sintomas. Em estágio avançado, sangramentos vaginais e dores abdominais costumam ser o alerta. Por ser assintomática no começo, os cuidados preventivos da doença precisam ser tomados sempre e não apenas quando a mulher percebe alterações em sua saúde. Com a detecção precoce, a chance de cura é de 100%.

No país, como forma de conscientizar a população sobre o câncer do colo do útero, realiza-se este mês o Março Lilás, campanha de prevenção e controle da doença. O objetivo é disseminar medidas necessárias para a promoção da saúde da mulher, como a realização de exames periódicos.


Arte sob fundo lilás sobre sintomas no estágio inicial e avançado do câncer do colo do útero

Para que a detecção no estágio inicial seja possível, é necessário fazer o exame preventivo (Papanicolau) com regularidade. “O exame indicado para mulheres ou qualquer pessoa com colo do útero, na faixa etária de 25 a 64 anos, e que já tiveram atividade sexual. Isso pode incluir homens trans e pessoas não binárias designadas mulher ao nascer”, explica a oncologista Fernanda Cesar Oliveira.

De acordo com o Inca, a periodicidade é a seguinte: a cada um ano, se o exame der negativo para câncer; e de três em três anos se o preventivo do ano anterior também for negativo. Em caso de infecção pelo HPV ou lesão de baixo grau, a periodicidade é de seis meses. Para casos em que há lesão de alto grau, o médico deverá oriental qual a melhor conduta. 

Arte no fundo lilás com a periodicidade do exame Papanicolau

Tratamento

Segundo o Inca, entre os tratamentos para o câncer do colo do útero estão a cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia. O estágio de evolução da doença, o tamanho do tumor e fatores pessoais, como idade da paciente e desejo de ter filhos, definirão o protocolo de cuidados.

A detecção precoce do câncer é uma estratégia para encontrar um tumor numa fase inicial e, assim, possibilitar maior êxito no tratamento. Fernanda explica que a detecção pode ser feita “por meio da investigação com exames clínicos, laboratoriais ou radiológicos, de pessoas com sinais e sintomas sugestivos da doença (diagnóstico precoce), ou com o uso de exames periódicos em pessoas sem sinais ou sintomas (rastreamento) pertencentes a grupos com maior chance de ter a doença”.

No caso de Flávia Monteiro, a professora revela que deixou de fazer alguns exames preventivos, já que os anteriores nunca apontaram alteração. “Eu não fiz todos os exames, por negligência mesmo. Havia acabado de me separar, tenho uma filha pequena e estava trabalhando muito. Como tinha feito no ano anterior, acabei não me preocupando. No ano seguinte, começou a pandemia. Então, fiquei dois anos sem fazer”, conta.

Imagem de braço de mulher com medicação intravenosa no braço

O câncer de colo de útero é, em regra, de crescimento lento. No caso da professora, entretanto, o tumor cresceu rapidamente. “Quando eu descobri, ele estava bem avançado e muito grande. Ele não era mais operável. Por isso, o tratamento consistiu em quimioterapia e radioterapia. Também fiz braquiterapia, uma espécie de radio mais localizada e interna. Foram dois meses de tratamento”, descreve. 

Durante o processo, Flávia lidou com enjoos e diarreia. O cabelo, apesar de mais fraco, não chegou a cair devido à quimioterapia ser mais leve. Também não sentiu ardência ao urinar, efeito colateral comum do tratamento. Os esforços da professora renderam frutos.

“Meu tratamento gerou um resultado muito bom. O tumor não apresentou aderência e, como ele diminuiu com o tratamento, pude operar. Tirei o útero e os ovários aos 44 anos, mas pelo menos eu sei que aquilo não está mais dentro de mim”, diz.

Flávia agora faz acompanhamento a cada seis meses. “Encerrei o tratamento. Refiz meus exames e está tudo bem. Agora preciso refazer a cada seis meses. Não vou mais me negligenciar.”