Setembro Amarelo: cuidar da saúde mental não é luxo

Por preconceito ou falta de recursos, pessoas ficam à margem do acesso aos serviços de saúde mental

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Nicolle Expósito

Pessoa sentada em cadeira usando máscara é atendida por profissional que preenche ficha
Subnotificação de problemas de saúde tende a agravar quadros / Foto: Freepik

L.B tinha apenas 14 anos quando precisou procurar ajuda de um psiquiatra pela primeira vez. A separação turbulenta dos pais somada às pressões da adolescência colaborou para o surgimento de ansiedade intensa e de transtorno obsessivo-compulsivo. "O SUS (Sistema Único de Saúde) me ajudou muito. Naquela época, estávamos passando por uma situação financeira complicada e estávamos sem plano de saúde. As consultas particulares eram muito caras e eu precisava de atendimento frequente”.

Segundo L.B, ter procurado ajuda foi fundamental. “Hoje faço apenas um tratamento de manutenção. Estou muito melhor. Não sei como estaria se tivesse ficado com vergonha de procurar ajuda ou se não pudesse ter acesso ao tratamento”.

Vergonha e falta de recurso: esses dois motivos muitas vezes acabam levando ao agravamento de quadros psiquiátricos. Rótulos pejorativos sobre a saúde mental e desconhecimento sobre como ter acesso a serviços gratuitos podem estar relacionados à subestimação do problema e à subnotificação de casos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o segundo mais depressivo. Se não tratadas adequadamente, questões emocionais podem levar a um quadro de desesperança e acabar culminando em suicídio. No mundo, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos. O suicídio já é a segunda principal causa de morte de jovens entre 15 e 19 anos.

De acordo com dados da Secretaria de Saúde do Espírito Santo (Sesa), o número de suicídios no estado tem diminuído. Foram 258 casos em 2019 e 223 em 2020. Até julho de 2021, foram 51 casos. Mesmo assim, os números ainda preocupam.

Deselitizar

A psicóloga Felismina Augusta Teixeira destaca a necessidade de desmistificar o tema saúde mental e suicídio. Ela preside o Instituto Psicologia Para Todos, uma Organização Não Governamental (ONG) que faz atendimentos presencial e on-line. As três primeiras sessões são gratuitas, depois disso é cobrado um valor social de R$25 por sessão.

“Vamos a escolas, igrejas, rodoviárias... Conversamos com a população com linguagem acessível. Explicamos que é possível tanto prevenir problemas emocionais quanto tratá-los.”

Felismina aponta a necessidade de “deselitizar o acesso ao tratamento da saúde mental” e explica que o SUS não dá conta de todas as demandas. “O SUS faz um trabalho extraordinário com as demandas graves. Já demandas leves a moderadas, como início de uma depressão por perda de um ente querido ou sintomas leves de ansiedade, não são acolhidas pelo SUS.”

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Demanda represada

A psicóloga Daniela Reis explica que apesar de haver rede pública de proteção à saúde mental no Espírito Santo, ela ainda é insuficiente para suprir a grande demanda. “O tempo de espera por uma consulta pode ser de até um ano e meio. A pessoa acaba desistindo de buscar ajuda. É preciso ampliar a capacidade de atendimento”. Ela destaca que em casos mais extremos, em que houve tentativa de suicídio, por exemplo, “a pessoa deve ser avaliada por um profissional qualificado em, no máximo, 24 horas.”

Reis também destaca que todos estamos sujeitos a problemas psicológicos e ao comportamento suicida, independente de idade, sexo ou classe social. “É preciso considerar os fatores de risco e os fatores de proteção de cada um. Ninguém está imune”, explica.

Apoio

Para atender quem não tem plano de saúde, recursos para pagar pelas consultas ou não pode esperar pelo atendimento no serviço público, algumas organizações, faculdades e universidades têm prestado apoio a quem precisa de cuidados de saúde mental.

O Núcleo de Psicologia Aplicada da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) faz atendimento psicológico individual (infantil/adulto) e também atendimento na modalidade de grupo. O serviço, que é gratuito, é realizado por estagiários - geralmente estudantes dos períodos finais do curso de Psicologia - sob a supervisão de professores. Tem prioridade de atendimento o público de baixa renda.

Além da Ufes, a Faculdade Faesa e a Universidade de Vila Velha (UVV) também oferecem atendimento gratuito à comunidade de baixa renda. Nos demais casos, é cobrado um valor social. O atendimento é feito por estagiários com a orientação de professores.

O estado também conta com o suporte do Centro de Valorização da Vida (CVV). “O CVV é uma importante rede de apoio e acolhimento. Os voluntários fazem uma escuta qualificada”. Entretanto, Daniela Reis explica que o comportamento suicida demanda tratamento que vai além desse tipo escuta. “O profissional especializado vai ouvir o paciente, compreender o sofrimento e ajudar a ressignificar a dor”.

Confira no final da matéria contatos e outros detalhes sobre os serviços

Rede Estadual

A Secretaria de Saúde do Espírito Santo (Sesa) conta com leitos psiquiátricos para adultos no Hospital de Atenção Clínica (HEAC) e no Centro de Atendimento Psiquiátrico Aristides Alexandre Campos (CAPAAC). Já os leitos de saúde mental infantojuvenis estão no Hospital Estadual Infantil e na Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba).

Além dos leitos próprios, o Estado conta também com os filantrópicos contratualizados e clínicas credenciadas para atender aos pacientes, utilizando o Protocolo Estadual de Classificação de Risco em Saúde Mental para definição de prioridade clínica para internação.

A Secretaria de Saúde esclarece ainda que as internações em saúde mental são uma medida excepcional. O objetivo é ajudar no processo de estabilização do paciente e resguardar sua integridade física.

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Risco e prevenção

Segundo a OMS, entre os fatores de risco para o suicídio estão: situação socioeconômica, stress social, problemas familiares, traumas e perturbações mentais como a depressão, o transtorno bipolar e a esquizofrenia. Sentimentos de baixa autoestima e desesperança também contribuem para elevar o risco.

Já os fatores de prevenção são aqueles que diminuem a chance de surgimento do comportamento suicida. A OMS aponta o apoio da família e amigos, crenças religiosas, envolvimento na comunidade, uma vida social satisfatória e o acesso a serviços e cuidados de saúde mental como primordiais para afastar a possibilidade de alguém querer tirar a própria vida.

Engana-se quem pensa que é preciso ter vivido um grande trauma para que haja risco de suicídio. “A dimensão da dor emocional só pode ser medida por quem a sente”, esclarece Daniela Reis. “O comportamento suicida depende de uma série de fatores. Não é uma equação matemática. Os perfis dos meus pacientes são muito variados", conta.

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Apesar de os perfis serem diferentes, há sentimentos comuns à maior parte dos indivíduos que apresenta comportamento suicida. “Muitas das pessoas que tentam tirar a própria vida foram vítimas de violência, em especial a violência intrafamiliar. Elas crescem com solidão, culpa e uma grande desvalorização de quem são. Sentem que não merecem ajuda, não merecem tratamento, não merecem viver”, explica Daniela.

Atenção aos sinais

A pessoa com comportamento suicida dá sinais. “Há quem verbalize a dor afirmando que quer morrer ou que não tem motivos para acordar pela manhã. Há quem expresse a intenção por meio de mudanças comportamentais, passando a apresentar um desejo súbito de organizar a vida, de ver certas pessoas (para se despedir ou fazer as pazes) ou de se isolar”, cita Daniela.

“É comum também que o indivíduo apresente alteração fisiológica significativa como passar a dormir demais ou ter insônia, comer excessivamente ou emagrecer muito rápido”, esclarece.

O tema suicídio ainda é cercado de mitos. A psicóloga Daniela Reis ajuda a esclarecê-los: