Trabalho por conta própria é alternativa na pandemia

Em meio à crise, motivadas pelo desejo de realizar um sonho ou para driblar o desemprego, muitas pessoas decidiram abrir o próprio negócio

Por Silvia Magna, com edição de Nicolle Expósito

Pessoa sentada em mesa de trabalho digita em computador
Domínio de ferramentas digitais é fundamental para quem resolveu empreender na pandemia / Foto: Freepik

Além das mudanças no comportamento e na qualidade de vida de muita gente, a pandemia causada pela Covid-19 acertou em cheio a economia. O distanciamento social, necessário no enfrentamento ao inimigo invisível e letal, impôs restrições para os setores da indústria, comércio e prestação de serviço.

A queda na produtividade trouxe a reboque o aumento do desemprego. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C) apontam que, em 2020, a média de desocupados no Brasil foi de 13,4 milhões de pessoas, aumento de 6,7% em relação ao ano anterior e a maior média desde 2012, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou a fazer o levantamento. O setor de comércio e o de serviços – como restaurantes, hotelaria e viagens - foram os mais afetados.

No Espírito Santo o cenário também é preocupante. Segundo a Pnad-C realizada nos três últimos meses de 2020, 279 mil pessoas no estado estavam sem trabalho. Quantitativo superior ao mesmo período de 2019, quando eram 222 mil desempregados.

Trabalho por conta própria

Diante do cenário desafiador no mercado, muita gente acabou vendo no trabalho por conta própria uma saída para driblar a crise. Ainda segundo a Pnad-C, esse contingente no Espírito Santo era de 494 mil pessoas entre outubro e dezembro de 2020, maior que os 481 mil do trimestre anterior. Muitas dessas pessoas, não exatamente por vocação, mas muitas vezes movidas pela necessidade, encontraram no momento adverso uma oportunidade de mudança de vida e, em alguns casos, de crescimento profissional.

Parte desse segmento é formada pelos microempreendedores individuais (MEIs), uma atividade formal e que possibilita mais segurança para os autônomos. De acordo com o site DataSebrae, o Espírito Santo fechou 2020 com 303 mil registros nessa categoria, 60,8 mil a mais que o saldo de 2019, quando eram 242.409 microempreendedores individuais. Cerca de 16 mil formalizações como MEI em 2020 ocorreram no início da pandemia, entre 31 de março e 1° de agosto.


Essa categoria é para quem tem um negócio que fature até R$ 60 mil ao ano. Nesse caso, o empreendedor tem baixo custo de contribuição (em torno de R$ 86 por mês), registro gratuito e totalmente on-line, registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), simplificação tributária, benefícios trabalhistas e acesso ao crédito com menos burocracia.

Conectados

No contexto da pandemia, os negócios on-line viraram o grande filão para quem resolveu trabalhar por conta própria. Esses novos empreendedores têm em mente que capacitação, planejamento, ousadia, criatividade, perseverança, boa comunicação e domínio das redes sociais são fatores essenciais para o sucesso.

“Na verdade, a pandemia me deu uma nova visão profissional, me incentivou e foi uma forma de conseguir um trabalho diante da falta de oportunidade no mercado. Estava em busca de estágio ou primeiro emprego, mas não conseguia porque as oportunidades ficaram mais escassas. Observei o surgimento de um novo público, que começou a consumir quase totalmente on-line e aproveitei a oportunidade para vender sem precisar montar uma loja física”, explica Ana Luiza Borini, 17, que montou a loja on-line de roupas Cropped-Me. A aposta do negócio são peças para uso no dia a dia e com preço acessível.

Ana explica que as dificuldades encontradas na pandemia foram o grande divisor de águas na visão que tinha do mercado de trabalho. Ela conta que começou a vender para conhecidos e divulgava os produtos no Instagram. A jovem empreendedora aconselha: o conhecimento e o domínio da internet devem ser prioridades para quem quer ter sucesso no empreendimento.

 
“A internet tem papel fundamental, pois funciona como a vitrine e o catálogo do negócio, já que a loja é 100% virtual. Comecei a estudar o mercado e a buscar referências no YouTube, que nos ensinaram a fazer as postagens e conquistar seguidores que hoje são clientes”, pontua.

Doce sonho

A confeiteira Isadora Gonçalves, 30, viu na crise a oportunidade perfeita para realizar o sonho de trabalhar com o que sempre quis. Casada e mãe de quatro filhos pequenos, ela começou a fornecer bolos e doces para festas e ocasiões especiais, como a Páscoa.

Com a ajuda do marido, que havia perdido o emprego devido ao fechamento do comércio, Isadora investiu em cursos on-line e apostou na divulgação pelas redes sociais, que são administradas por ele. Ela, que sempre foi tímida, aprendeu a interagir com o público nas redes, dando dicas, vídeos de receitas, tirando dúvidas e fazendo lives para pessoas interessadas no ofício.

Hoje, a moça do interior que não conseguia espaço no mercado por não ter condição de montar uma estrutura física compatível com as lojas do ramo comanda a Isa Guimarães Confeitaria. A empresa entrega cerca de 200 encomendas de bolos confeitados e doces por semana.

“Eu sempre atualizei meus conhecimentos na área. Nunca deixei de acompanhar o mercado e sabia que um dia eu viveria do que amo fazer. Hoje eu não me vejo trabalhando como funcionária porque aprendi a tocar o negócio com os recursos que tenho. Descobri que o mercado online veio para ficar e se o empreendedor quer que o negócio sobreviva precisa dominar esse universo”, explica.

Impulso na pandemia

Desempregado durante dois anos, Roberto Estevam Scheppa sempre quis empreender. A oportunidade apareceu ao se unir ao amigo e atual sócio, Welyson Campos de Oliveira. Em 2019 eles montaram a Crocoricó, especializada em frango frito. A chegada da pandemia alterou a rotina de trabalho e a mudança radical no dia a dia das pessoas durante esse período foi a grande responsável pela explosão de vendas da empresa.

Roberto explica que, com a chegada da crise, muitas pessoas perderam seus empregos e precisavam gerar renda para sustentar as famílias. Foi aí que surgiu a oportunidade de expandir o negócio, transformando a única loja em uma rede com quatro unidades, uma delas em Jundiaí (SP).


“O comportamento das pessoas mudou e tivemos que nos adequar a isso. Um dos maiores desafios foi manter a organização da empresa em situação de emergência. A pandemia trouxe uma demanda muito grande e aumento de visibilidade. Tivemos que implementar o controle dos processos, já que a produção aumentou muito”, disse.

Tendência

Para alguns especialistas esse comportamento do mercado deve continuar no pós-crise. Segundo eles, o mercado mudou e o perfil do empreendedor também sofreu alguma transformação. “As pessoas estão aprendendo a importância de profissionalizar o serviço, seja ele qual for. Hoje, uma pessoa que resolve empreender sabe que precisa se capacitar, entender de internet e mais uma série de coisas que antes não achava importante, mas que são determinantes em todo e qualquer negócio, como comportamento do cliente, gestão de riscos e crises, concorrência, marketing e estratégias de negócio”, afirma a economista Crisley Fuzer.

Jornada  para o sucesso

Trabalhar por conta própria não funciona como mágica nem acontece da noite para o dia. A estrada para a independência profissional e financeira passa por inúmeros desafios que podem ser vencidos com muito esforço, disciplina e estratégias. Nesse caminho, algumas características fazem a diferença:

  • Coragem: lançar-se de corpo e alma em um novo desafio do qual depende a sua sobrevivência demanda essa qualidade;
  • Identificação com o negócio: fundamental para enfrentar os desafios e alavancar o empreendimento;
  • Autoconfiança: confiar em si mesmo ajuda a transmitir credibilidade às pessoas a ponto de transformá-las em clientes; 
  • Atitude: retira os desejos do plano das ideias e faz as coisas acontecerem; 
  • Bons parceiros: ninguém faz nada sozinho, por isso, é fundamental ter bons e confiáveis fornecedores, além de colaboradores que não o deixarão na mão.


Ter conhecimento sobre o mercado e o cliente, além de realizar e seguir um  planejamento financeiro são outros fatores importantes. De acordo com Crisley, a maioria dos empreendedores de primeira viagem usa as próprias economias para começar o negócio. “Essa atitude, sem um planejamento prévio, é muito arriscada. Planeje antes e se discipline para não sair do caminho. Por fim, estude muito. A mentalidade do profissional de sucesso é sempre a de criação e aprendizado”, orienta a economista.

Formalização do negócio

Ser um microempreendedor individual é uma saída para quem busca mais facilidade na abertura de um novo negócio e não tem estrutura financeira para gerenciar os altos custos das empresas. Quando um trabalhador se formaliza como MEI, contribui com a previdência social e tem os mesmos benefícios de um trabalhador com carteira assinada, além de acesso simplificado a crédito para fomentar o negócio. Todo o processo é realizado gratuitamente pela internet e o trabalhador poderá imprimir o CNPJ na hora.

Para saber como ser um microempreendedor individual, basta acessar o Portal do Empreendedor ou, caso necessário, procurar uma agência do Sebrae no município. A entidade oferece, ainda, inúmeros cursos on-line de capacitação em diversas áreas. Muitos são gratuitos e garantem o certificado de participação.

Socorro na pandemia

Desde o início da crise sanitária a Assembleia Legislativa (Ales) vem debatendo a situação do trabalhador que perdeu sua colocação no mercado por causa da pandemia. Entre as medidas estão prorrogação de pagamento de tributos, isenção de taxas e parcelamento de dívidas de serviços essenciais como água e energia.

O parlamento também debateu com o governo do Estado o acesso ao crédito para quem quer ou precisa empreender neste período, como a liberação de até R$ 5 mil com carência de seis meses para o primeiro pagamento para que o trabalhador possa tocar o negócio.

Também foi aprovado projeto de autoria do governo que permite ao Espírito Santo participar do Fundo de Aval, um dispositivo de financiamento a ser criado pelo Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) para ajudar com crédito pequenos empreendedores e agricultores. O aporte público deve girar em torno de R$ 100 milhões.
 



 

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