Da tentativa de suicídio ao novo sentido para vida

Aos 36 anos, o terapeuta Bruce Carvalho conta como o trabalho voluntário o ajudou a vencer a depressão

Por Patrícia Bravin com produção de Fabienne Costa

Bruce Carvalho
Bruce Carvalho recorreu ao autoconhecimento e à meditação para retomar a rotina / Foto: Divulgação Instagram

* Matéria originalmente publicada em 21/09/2020

“Quando eu decidi que tinha chegado ao limite da vida, com meus sentimentos de inadequação social e dor existencial, foi um misto de emoções, mas o que prevalecia era uma sensação de alívio. Eu pensava: se eu não tivesse mais aqui nessa vida, toda dor que eu sentia se resolveria”.  Ao desnudar um dos momentos mais difíceis que já viveu, o bacharel em Direito e hoje terapeuta Bruce Carvalho, 36 anos, relata o caminho que percorreu para superar a vontade de tirar a própria vida. 

Bruce diz que não consegue identificar quando os sintomas da depressão chegaram. Diz que não gostava do curso de Direito, mas que fazia porque ganhou bolsa, e não sentia motivação no emprego de nove anos que tinha no serviço público. “Vivia sobrecarregado até o ponto de pedir exoneração. Daí em diante, veio o desemprego por dois anos e os sentimentos de falta de lugar no mundo”, desabafa.

Foi o trabalho voluntário e o apoio do companheiro que resgatou o terapeuta para uma nova vida. “Depois de tudo, certo dia, tive uma longa crise de choro. Eu falei sozinho e contando a Deus que não aguentava mais meus sentimentos. Então tive a ideia de ir com meu irmão fazer serviços voluntários”, revela.

Ao contrário do que muita gente pensa, não foi por falta de diálogo que Bruce chegou a atentar contra a vida por duas vezes. Ele conta que era cercado de amigos e familiares que tentavam incentivá-lo e não o deixavam passar necessidades. “Isso aumentava meu sentimento de incapacidade. Eu me sentia um peso para todos. Só mudou isso no serviço comunitário, quando comecei a perceber que muitas pessoas passavam por problemas como eu e, às vezes, mais sérios”, lembra.

Retomar não foi fácil. Bruce afirma que precisou dedicar-se ao autoconhecimento e à meditação para retomar a rotina, o trabalho e os estudos. “Em 2018 terminei um mestrado em Reiki, uma terapia oriental. Hoje dou cursos e, depois que vi minha vida transformada, comecei a promover encontros de meditação em um espaço que chamo de ‘Vibrar’. Aprendi a conviver com os momentos de introspecção e sei que a felicidade não é algo contínuo”, ensina. 

Depressão profunda requer escuta qualificada 

“Você vai sair dessa. Tudo vai dar certo. Amanhã será diferente. A vida é cheia de oportunidades. Bola pra frente”. Frases como essas são bem comuns principalmente nas redes sociais, e muita gente acha que argumentos assim podem ajudar alguém que está em desespero emocional. Sim, conversar é importante, mas a abordagem inadequada pode aumentar os sentimentos de incapacidade social. É por isso que especialistas defendem que discutir a saúde mental é uma pauta que precisa ir além do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio.

A psicóloga Juliana Vieira destaca a importância de investir na escuta qualificada. “É preciso transformar sofrimento em palavra. É claro que falar de uma dor não é o mesmo que eliminá-la. E uma vez que somos sujeitos de linguagem, não há nada que nos segure na vida a não ser o laço com os outros. Sentido da vida é um verbo que se conjuga na relação com as pessoas da nossa história”, explica.

A psicóloga pondera que o acolhimento de uma pessoa em profunda angústia - o que ela chama de escuta qualificada – deve ser feito por um profissional com qualificação. “Existe um percurso de estudo e formação clínica para fazer essa abordagem sobre o profundo sofrimento do outro. É preciso encaminhar essa pessoa a um trabalho subjetivo de reflexão. Cada sujeito vive algo singular de sua própria existência. Não estamos tratando de coisas objetivas”, ensina.

Juliana cita ensinamento do psicanalista Freud de que a morte é um conceito abstrato, sem nenhum correlativo no inconsciente. “Ou seja, quando alguém diz que quer morrer, essa pessoa não está mesmo querendo morrer, porque a gente não sabe o que é a morte para querê-la. O que se apresenta como desejo de morte, então, é o desejo de cessar a dor, de parar o sofrimento, de estancar a angústia”, diz.

Para a psicóloga, a sociedade não tem espaço para a impotência e a incapacidade de ser ativo e produtivo. “Mas é preciso colocar em questão o sofrimento humano. O suicídio é uma realidade muito maior do que a realidade mostra. E o tema é pouco abordado na mídia por conta do efeito cascata, mas acaba anulando o assunto, que é um grande problema de saúde pública”. 

A psicóloga ressalta como o profissional pode ajudar nesse processo: “A gente fala que sabe que está difícil, que a vida vale muito e pede ao paciente permissão para acompanhar naquilo tudo que ele está vivendo  e tentar, juntos, uma possibilidade. Isso porque é um caminho do próprio sujeito e não do outro. Ninguém pode salvar um sujeito de si mesmo”, esclarece.

Setembro Amarelo 

A psiquiatra Telma Freitas Pimenta, coordenadora da Campanha Setembro Amarelo da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, explica que a campanha visa informar a importância de medidas de saúde capazes de diagnosticar e tratar devidamente as doenças mentais, a partir do treinamento de profissionais, especialmente médicos, para diagnosticar fatores de risco e incentivar medidas protetivas ambientais. 

Ao ser implantada no Brasil em 2014, pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), a campanha primou pela responsabilidade e comunicação consciente, com o intuito de promover informação e tratamento o mais precoce de doenças psiquiátricas.

“O ato suicida não ocorre de modo isolado. fatores envolvendo impulsividade, ambivalência e rigidez mental se fazem presentes no indivíduo que tira a própria vida. Avaliar o grau de risco, se é leve, moderado ou grave, permite encaminhar a pessoa para o tratamento mais adequado ao caso”, afirma Telma Pimenta, que é vice-presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-ES).

Ela alerta que o suicídio é uma emergência médica e que a saúde pública precisa estar preparada com redes de atendimento em todas as áreas, primária ou básica, secundária e terciária. “Deve existir um fluxo adequado entre as mesmas , para a eficácia da prevenção. Com a informação correta e munido de orientações sobre o assunto, o estigma da doença mental deve ser quebrado.  Assim, ao saber que existe tratamento, a busca do indivíduo por ajuda profissional aumenta, diminuindo o risco de suicídio. E mais: com a solidariedade naturalmente exercida pelo cidadão, torna- se factível obter o êxito pretendido”, afirma a psiquiatra.

Além dos debates sobre o suicídio, a campanha traz a proposta de pintar, iluminar e estampar o amarelo nas mais diversas situações, garantindo mais visibilidade à causa. Ao longo dos últimos anos, escolas, universidades, entidades do setor público e privado e a população de forma geral se envolveram, presencial ou virtualmente, nesse movimento, em todo o país. 

“Mas todos podem ser divulgadores dessa importante causa.  Ações na rua, caminhadas, passeios ciclísticos, roupas amarelas ou simplesmente o uso do laço no peito já despertam atenção e contribuem para a conscientização. Faça parte desta causa! E não se esqueça: A campanha é em setembro, mas falar sobre prevenção do suicídio em todos os meses do ano é fundamental”, convoca o movimento. 

A Campanha Setembro Amarelo tem uma página na internet com todas as informações sobre a história e os eventos relacionados com o movimento.

Frente Parlamentar de Saúde Mental

A Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental foi proposta pelo deputado e médico Emílio Mameri (PSDB). O colegiado tem atuado no debate sobre as doenças psiquiátricas. O objetivo é contribuir para a discussão em torno da modernização do tratamento oferecido no Espírito Santo para os pacientes. 

A FP tem se pautado em dialogar com especialistas e pacientes para formatar um novo modelo de atendimento e de serviços de saúde mental no estado. “Acredito que é possível aproveitarmos projetos desenvolvidos em outras partes do país e do mundo que estejam trazendo resultados positivos. Sabemos que é um tema complexo, mas, se você quer combater, é preciso discutir”, afirma Mameri.

Uma das metas da FP é elaborar um protocolo para facilitar a identificação de potenciais vítimas para facilitar as medidas de prevenção. A preocupação central do colegiado hoje é com a pandemia do novo coronavírus.  

“É o que chamamos de “Quarta Onda”, em que teremos que tratar do adoecimento mental durante e também no período pós pandemia. São muitos os fatores que precisam ser abordados dentro desse tema. As pessoas estão adoecendo, perdendo parentes e amigos, o próprio confinamento e distanciamento social, tudo isso. São muitos os aspectos que contribuem para o prejuízo da saúde mental no atual contexto”, conclui o deputado.

Além da frente parlamentar, o tema saúde mental também tem abordagens constantes na Comissão de Saúde da Ales, presidida pelo também médico e deputado Doutor Hércules (MDB). É dele a iniciativa da legislação que institui o Setembro Amarelo no Espírito Santo.  “Nós temos de falar com as famílias, temos de conversar sobre isso. É preciso que as pessoas observem aqueles que dizem que vão pôr fim à própria vida”, reforça o emedebista.

CVV 

Enquanto as políticas públicas de atendimento de urgência para casos de suicídio ainda caminham, a ONG Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza um trabalho de referência. São mais de nove mil atendimentos via telefone, e-mail ou chat por dia e mais de 3 milhões por ano no Brasil, realizados em 120 postos. 

O serviço funciona 24 horas, diariamente, e é mantido por cerca de quatro mil voluntários dispostos a ouvir quem quer conversar sobre seus sentimentos e suas dores, com absoluto sigilo. Um dos idealizadores do “Setembro Amarelo”, o CVV propõe-se a ser como um pronto socorro emocional. ”Sabemos que a pessoa que quer se suicidar dá alguns sinais, não é fácil ver esses sinais, mas devemos estar atentos. Nós escutamos e facilitamos que ela se conecte, e a entender o porquê da sua dor”, explica Ana, porta-voz do CVV Vitória.

A voluntária defende que o suicídio é possível de ser prevenido. “”Acreditamos que falar é a solução porque a pessoa desabafa e reconhece o que sente. Ajudamos as pessoas a encontrar suas próprias soluções, a fazer seu próprio caminho, a reconhecer seus sentimentos, a dar nome a eles”, conta.

Além dos serviços a distância, o CVV tem um serviço à disposição das comunidades. “O CVV Comunidade promove palestras, cursos de Valorização da Vida, Campanha do Setembro Amarelo e o GASS, Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio”. 

Sobre atendimentos durante a pandemia, a voluntária Ana disse que a ONG ainda não dimensionou os números, “mas percebemos que as pessoas que nos ligam abordam sentimentos relacionados ao confinamento, como o medo e a solidão, e as formas como estão sobrevivendo à crise”, pontua.

Na avaliação sobre o Setembro Amarelo no estado, Ana disse que é uma campanha que a sociedade abraçou para ajudar com debates, informações e com ampliação das ações de prevenção. “Falar sobre o suicídio ajuda a quebrar os tabus e mitos e a criar abertura para expor o que sente, reforça a necessidade de tratar dos transtornos emocionais que levam ao suicídio”, avalia. O acesso aos serviços pode ser feito pelo telefone 188, e-mail ou pelo chat disponível no site do CVV.

Números no ES durante a pandemia

De acordo com números fornecidos pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), de março a agosto de 2020, foram registrados 785 atendimentos de incidentes psiquiátricos envolvendo autoagressão e tentativas de suicídio, 152 ocorrências a mais que no mesmo período de 2019. Os seis primeiros meses de isolamento social acumulam um acréscimo de quase 20% de atendimentos registrados pela Sesa. 

A técnica de saúde mental da Secretaria da Saúde, Larissa Almeida Rodrigues, considera a campanha Setembro Amarelo como uma importante estratégia de prevenção. “Coloca o tema em evidência, principalmente nesse momento de pandemia, em que as pessoas estão mais vulneráveis. É um novo cenário com muitos fatores de risco também para a saúde mental; por isso, estamos atentos, capacitando e atualizando profissionais da área”, disse. 

A psiquiatra Thelma Pimenta explica que situações de crise, durante catástrofes ambientais, epidemias e pandemia são fatores de risco para a eclosão de quadros psiquiátricos em indivíduos com predisposição genética, sendo a ansiedade um dos mais comuns. “O Brasil ocupa o primeiro lugar mundial no ranking da doença. São 18 milhões de brasileiros que sofrem com isso. E então temos sim o agravamento de quadros psiquiátricos preexistentes e aqueles que estavam estabilizados com tratamento apresentam piora”.

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