Filhos da hanseníase e a luta por reparação

Internação compulsória e isolamento impostos a pessoas com hanseníase no passado deixaram sequelas para os filhos dos pacientes que amargam, entre outros prejuízos, a perda do vínculo familiar

Por Gabriela Knoblauch, com edição de Nicolle Expósito

Homem aparece em pé na escadaria do prédio de fachada branca onde funciona o Educandário Alzira Bley
Heraldo Pereira é um dos cerca de 450 ex-internos do preventório, o Educandário Alzira Bley / Foto: Lucas S. Costa

“Sou filho da hanseníase. Neto, na verdade. Sou a terceira geração dentro da minha família. Minha avó foi interna da Colônia de Itanhenga. Minha mãe foi a primeira interna no preventório Alzira Bley, em 1937. Entrou com apenas 4 anos. Depois, contraiu a doença e passou a viver no leprosário. Lá, conheceu meu pai, que veio de um leprosário de Minas Gerais. Tiveram oito filhos. Todos levados para viver no preventório. Eu fiquei até os 2 anos no leprosário, no meio dos doentes. Não fui contaminado. Mas o normal era ser levado ao preventório logo após o nascimento. As mães mal tinham a oportunidade de olhar para os filhos.”

O relato é de Heraldo José Pereira. Um dos milhares de filhos e filhas de hansenianos separados dos pais ainda pequenos e levados ao Educandário Alzira Bley (EAB), o preventório, local para onde os filhos saudáveis de pessoas com hanseníase eram encaminhados sob a justificativa de evitar contágio pela doença. A política de segregação de pessoas com hanseníase que, no Espírito Santo, vigorou de 1935 a 1972 deixou marcas até hoje difíceis de superar.

Montagem - BEBÊS
A hanseníase, antigamente conhecida como lepra, demandava isolamento compulsório em colônias. No Espírito Santo, pessoas acometidas eram isoladas no Hospital Pedro Fontes, em Cariacica.

Como forma de buscar reparo aos danos de diversas ordens vividos por quem passou boa parte da vida separado dos familiares e do restante da sociedade, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) criou, no apagar das luzes de 2021, a Frente Parlamentar de Enfrentamento da Hanseníase (Ato 1.654/2021).

A iniciativa, de autoria do deputado Dr. Hércules (MDB), também busca a  restauração do local. “Eu conheço bem o Hospital Pedro Fontes. Trabalhei lá por 10 anos e continuo indo, pelo menos, uma vez por mês. Estou vendo que o hospital precisa de atenção especial. Eu criei essa Frente para dar um suporte melhor, especialmente para os últimos pacientes que estão lá. São cerca de seis pessoas, somente. E para dar suporte para os filhos das hansenianas, que foram separados de suas mães no nascimento e levados ao preventório. As mães não podiam nem amamentar. É preciso fazer justiça para eles, para que recebam o que têm direito, ou seja, uma indenização em forma de dinheiro ou aposentadoria. Eles precisam de atenção e a Frente tem essa finalidade, além da restauração da capela dentro do cemitério do hospital”, explica o deputado.
 

MONTAGEM DOUTOR HÉRCULES
Isolamento

A hansensíase era considerada até 1972 uma doença altamente contagiosa, sem tratamento e que demandava o isolamento do paciente gerando forte discriminação dos portadores. No Brasil o manejo da enfermidade seguia as diretrizes acordadas na I Conferência Internacional de Lepra (termo usado na época), que ocorreu em 1897, na Alemanha. Uma das determinações era de que as pessoas com a enfermidade fossem segregadas compulsoriamente.

No Espírito Santo, a internação obrigatória de pessoas com hanseníase foi iniciada em 1935 por meio do Decreto 7.117. Em conformidade com essa determinação, foi criada no estado, em 1937, a Colônia de Itanhenga, conhecida como leprosário, no município de Cariacica. Hoje o local é conhecido como Hospital Pedro Fontes. Já no Brasil, a internação compulsória de pessoas com a doença foi iniciada mais cedo, em 1924.

A medida representou uma espécie de morte social para muitos, além de um brusco afastamento do seio familiar, gerando uma série de sequelas emocionais naqueles que vivenciaram a situação. Existia no período a polícia sanitária que era encarregada de afastar os doentes do convívio social. As pessoas eram levadas à força se fosse necessário.

MONTAGEM - COLÔNIA DE ITANHENGA
Preventório

Além dos locais de isolamento, também foram criados para o enfrentamento da doença os dispensários, onde eram realizados exames para confirmação ou descarte de novos casos, e os preventórios, que recebiam os filhos de pessoas com hanseníase afastados de seus pais desde o nascimento, o que impedia a criação de um vínculo afetivo entre filhos e pais.